A Bela Adormecida

    

    Há muito tempo, um rei e uma rainha eram muito poderosos e ricos. Tinham tudo, porém queriam ter filhos; o único sonho ao qual aspiravam:

-- Se pudéssemos ter um filho...-- dizia o rei.

-- E se nascesse uma menina! -- dizia a rainha.

-- Imagina, então, gêmeos! -- acrescentava o rei.

    Os anos passavam e o desejo não era saciado. Os monarcas não se animavam mais com os bailes, banquetes, criação de açougues higiênicos, nem com nada. Um dia a rainha foi banhar-se no rio e uma rã lhe disse:

-- Majestade, sua vontade será concretizada. Você dará a luz a uma menina que nascerá em menos de um ano.

    A profecia da rã se cumpriu: deram a luz a uma menina. Chamaram a criança de Aurora. Deram-lhe este nome porque a nenê havia nascido numa aurora e também para não esquecer da marca de linguiça favorita do rei. Para o batizado da menina, decidiram chamar uma multidão de súditos e as treze fadas conhecidas no mundo. Quando os carteiros já estavam prontos para entregar os convites aconteceu um problema:

-- Majestades, a décima terceira fada, Malévola, tem péssima reputação. Além de cometer corrupção e ser acusada de desvio de verbas, ela foi expulsa do Conselho das Fadas por fazer bruxaria. O que faremos? -- disse o conselheiro do castelo.

-- Não a convidaremos para não causar problemas. Talvez nem saiba que Aurora nasceu. -- disse Margareth, a rainha.

-- Não falta linguiça, não é? -- disse o rei Leopoldo.

-- Não falta, não, senhor!

-- E se faltar linguiça! Porque linguiça é muito gostosa. Porque linguiça tem gordura e é gostosa. Não dá pra viver sem linguiça, que faz bem porque tem fibras. Já falei que é gostosa? Porque linguiça...

-- CHEGA! Se você mencionar mais uma vez a palavra linguiça vai dormir no sofá!

-- Desculpe! Estou enchendo linguiça, não é?-- falou envergonhado.

    Partiram apenas doze mensageiros com convites para doze fadas, conforme a rainha resolvera. No dia da festa, cada uma das fadas chegou perto do berço em que dormia a princesa e ofereceram cada uma um presente maravilhoso:

-- Será a mais bela, porque feia já tem demais!

-- Também será bondosa!

-- Será a mais inteligente, porque burra já basta!

 Onze fadas passaram em frente ao berço. Faltava apenas uma, que tinha ido ao banheiro porque não tinha ido antes da viagem até o castelo. Enquanto isso, apareceu Malévola, a décima terceira fada, que não havia sido convidada para o batizado. Rogou a seguinte praga:

 

-- Quando essa princesa completar quinze anos, ela vai se furar no fuso de uma roca e morrerá.

A décima segunda fada acabara de voltar do banheiro e se escondera atrás de uma cortina. Malévola foi embora com um sorriso tenebroso e fúnebre. Os pais de Aurora estavam muito tristes. A rainha quase entrou em estado de choque e o rei, para passar as mágoas, começou a comer um prato de linguiça. A décima segunda fada saiu do esconderijo e disse:

-- Aurora, filha do rei Leopoldo e da rainha Margareth, não tenho poderes suficientes para quebrar a maldição, mas posso modificá-la um pouco. Dormirá por cem anos até que um príncipe venha e lhe acorde com um beijo.

-- Por que tanto tempo Flora? -- disse a rainha. Flora era o nome da fada.

-- Porque o disk-príncipe teve muitas ligações. Então só consegui a entrega pra daqui a cem anos.

Por medida de segurança, o rei mandou queimar todas as rocas do reino. Quem fosse pego fiando teria que passar o resto da vida com um hippie. Aurora crescia e os presentes das fadas, apesar da maldição, davam resultados. Todos os súditos a adoravam.

Foto: autor desconhecido

Um dia, os pais da princesa foram caçar coelhos para fazer guisado e dar para os pais da rainha. Deviam até ter esquecido da maldição. Aurora, cansada de ficar brincando de rainha, no dia em que completou quinze anos, começou a andar pelo castelo e entrou numa velha torre. Lá estava uma velha fiando algodão que disse:

-- Olá, menina. Sou Malévola, fiandeira do castelo, como se chama?

-- Aurora. Meus pais nunca falaram de você.

-- É que como eu fio, os outros querem que eu faça roupas. Tem cabimento? Então pedi para as majestades não ficarem falando por aí de mim.

-- Como chama esse instrumento de trabalho?

-- Roca, filha.

-- Posso tentar fiar?

-- Mas é claro! É só você enrolar o fio nesta agulha e ir pisando neste pedal.

A princesa fez como a mulher mandou, porém se furou com o fuso da roca.

-- Ai! Me espetei!

-- Normal. Já me espetei várias vezes.

-- Nossa, estáá tuuudo giraaando! (CAPOT) -- Aurora caiu estatelada no chão. 

 

A velha era na verdade Malévola.  Num passo de mágica, a ex-fada foi embora dando uma grande gargalhada. Os pais da princesa chegaram uma hora depois. Ficaram chocados. E se puseram a chorar. Colocaram a menina deitada em seu quarto. De repente, todos começaram a dormir. Os monarcas, os cozinheiros, os trovadores, as camareiras, guardas, todos do castelo. Até o fogo parou de queimar, o vento parou de assoviar. Tudo num grande silêncio.

Durante um século, só restava a história de um castelo onde uma linda moça esperava o beijo de um príncipe para acordar. Muitos tentavam chegar no local, mas ninguém conseguia por causa da floresta densa que se consolidara durante anos. Os que tentavam ou morriam machucados pelos espinhos ou voltavam bastante machucados para suas casas. Quando chegou o dia que faltava para completar cem anos, um fusquinha velho apareceu no matagal onde antes era um reino e fez:

-- Biii! Biiiiii!

De dentro do carro saiu um príncipe, Felipe, da Escócia. Ele começou a passar pela grande floresta apenas utilizando uma serra elétrica. Ele conseguiu chegar no castelo, quando entrou disse:

-- OLHA O PRÍNCIPE, PRÍNCIPE, PRÍNCIPE, DONA MARGARETH! Oh! Desculpe! É RAINHA MARGARETH! - parecia o chamado da cândida.

O príncipe subiu as escadarias correndo e chegou no quarto de Aurora. Lá estava ela: bonita como nunca dantes vista. Só não superava a Branca de Neve, claro. O príncipe deu um beijo na princesa e ela acordou. Tudo acordou. Todos os cozinheiros, camareiras, trovadores, os reis, todos. Até o fogo e o vento voltaram a seus afazeres. O príncipe então perguntou a princesa:

-- Que anéis são estes neste criado mudo?

-- Afinal, você quer casar comigo ou ficar encalhado?

-- Quero casar com você.

A festa foi muito bonita. Teve muita música e magia. Para o casamento todos do reino foram convidados. O rei não deixou de pedir bastante linguiça e a rainha não parou de chorar de emoção. Malévola, a fada do mal, se matou, porque Flora, a fada que modificou a maldição, ganhou o prêmio de "Melhor fada durante cem anos" e fez ela ficar com inveja.

 

 

 Autor: André Pereira Falcão

FIM